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7 October 2009

Antropoceno sem anthropos

Um grupo de 29 cientistas liderados por Johan Rockström (Stockholm Resilience Centre) publicaram recentemente um artigo na revista Nature no qual definem nove limites fisicos para o planeta Terra que a humanidade não deve transgredir. Ultrapassar qualquer um destes limites pode causar uma instabilidade abrupta nos sistemas essenciais de suporte da vida. Passaremos do período holoceno (que teoricamente seria estável durante mais meia dúzia de milhares de anos) para o antropoceno (o período em que a Terra lidará com as alterações drásticas e profundas que o homem gerou na biosfera). A designação "antropoceno" é, no mínimo, paradoxal pois as alterações que se esperam questionam gravemente a viabilidade das próprias sociedades humanas. Um antropoceno sem anthropos.

Imagem de The World Without Us

18 August 2009

Goya pinta o rei "ousado"

Carolina de Beauregard (Condesa de Montoro), que se correspondeu assiduamente com Voltaire na segunda metade do século XVIII, apresenta assim a cidade de Madrid e os esforços do rei que foi higienicamente muito "ousado":

"El rey Carlos III que es persona bastante razonable apesar de tener la fisionomia y viveza de expresión de una oveja, intentó remediar algunas de las más notables deficiencias de la ciudad. Madrid es una villa bastante grande, de más de 150.000 habitantes y de una fealdad realmente sublime. Tiene fama de ser la ciudad más sucía, pestilente y vocinglera de Europa. (...)
Carlos III encargó las reformas de Madrid a don Francisco Sabatini.
Sabatini hizo construir alcantarillas, cloacas y excusados para 14.000 viviendas; ordenó que las basuras se colocaran en lugares determinados en lugar de arrojarse sin otros miramientos a la via pública; dispuso construir aceras con cargo a los propietários de las viviendas; prohibió el deambular por las calles de cerdos y outros animales; mandó instalar 2.000 farolas públicas (...). Tantos câmbios causaran vértigo en el buen pueblo de Madrid que se sentia feliz entre la mierda y las tinieblas. Se inició una revuelta sediciosa bastante grave encabezada por un cura y las turbas apedrearan con entusiasmo las farolas hasta no dejar una sana, amén de intentar asaltar la casa de Sabatini para castigarle por su osadia higiénica..."

O jardim das dúvidas

Livro de Fernando Savater (filósofo basco) que reúne cartas trocadas entre uma aristocrata francesa que vive em Madrid e o próprio Voltaire, na altura com 83 anos.

Este ano uma das obras mais conhecidas de Voltaire faz 250 anos (Cândido ou o Optimista).

Sabem qual é a resposta para a adivinha no papelinho em cima?

Escutar Die Zauberflöte


A Flauta Mágica é a última ópera de Mozart. Estreou em Setembro de 1791, o ano da sua morte.
A ópera mostra a filosofia da iluminação e está repleta de símbolos maçónicos.

3 February 2008

Amor nos tempos de cólera...

A minha estreia no reino do colombiano Márquez...
Um bonito livro pela forma e conteúdo. Alguém tem o "Cem anos de solidão?" que me empreste?

28 January 2008

O livro que nunca o foi...

Tem sido a minha actual leitura de cabeceira - O Livro do Desassossego de Pessoa - ou do seu inseguro "eu" Bernardo Soares - num conjunto de textos, apontamentos e desafabos que nunca chegaram a ser um livro... São mais as peças soltas de um retrato da vida e pensamento de Bernardo Soares.

Como ele próprio escreve "Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho que dizer".

Mas dizem tanto ...

14 June 2007

O ser português

No "Quinto Dia" da "Criação do Mundo", Miguel Torga expõe as sua reflexões sobre a viagem que tinha feito recentemente pela Espanha em plena guerra civil...

"Durante a viagem (...) apesar de horrorizado pela luta fraticida que o via travar, não me cansara de admirar a força afirmativa do povo espanhol, em todas as circunstâncias seguro da sua singularidade e grandeza. O mais humilde salamantino ou soriano, quando declarava a origem, como que atirava sobranceiramente um punhado de barro da meseta à cara do interlocutor. (...) O desgraçado lusíada, pelo contrário, sempre que se via forçado a nomear a terra de nascimento, tinha a sensação de que se denunciava. Impressionado há muito por essa marca do nosso carácter (...) cada vez se arraigava mais no meu espírito de que era preciso estar em graça para merecer certas pobrezas. (...) À semelhança do que acontecia na vida, que também nos é imposta e a que temos que dar sentido, assumindo-a, só num idêntico assenhoramento voluntário e corajoso do berço o poderíamos justificar. Mas só agora (...) via a dificuldade de atingir tal nobreza de alma. Muito poucos o conseguiam. De ai os ditirambos e os sarcasmos, lados do mesmo desespero."

20 May 2007

A Criação do Mundo

Miguel Torga nasceu há 100 anos. Para ser mais precisa: Adolfo Correia da Rocha nasceu no dia 12 de Agosto de 1907. Talvez por isso, ou talvez porque sinto vontade de imbuir-me mais do espírito transmontano, comecei a ler a sua "A Criação do Mundo", a sua própria história.
Até agora só tinha lido "Os Bichos", livro que classifiquei de belíssimo e cruel em simultâneo. Ali não há finais felizes, só finais reais...
Num prefácio a uma edição de "A Criação do Mundo"(em 1984), Miguel Torga escreveu: "Todos nós criamos o mundo à nossa medida. O mundo longo dos longevos e curto dos que partem prematuramente. O mundo simples dos simples e o complexo dos complicados. Criamo-lo na consciência, dando a cada acidente, facto ou comportamento a significação intelectual ou afectiva que a nossa mente ou a nossa sensibilidade consentem. E o certo é que há tantos mundos como criaturas..."

Mais sobre Miguel Torga e a sua obra

Nem tudo começa com um beijo


Este livro da autoria de Jorge Araújo e Pedro Sousa Pereira, ambos vencedores do Prémio de Literatura Gulbenkian em 2003, conta a história de um mundo que é uma casa. Uma casa com Cave e Sótão. A Cave são os buracos de esgoto que acolhem dezenas de meninos sem abrigo. O Sótão é a cidade onde vão buscar comida às "panelas com rodas" e onde Fio Maravilha conhece Nuvem Maria...
O livro tem umas bonitas ilustrações mas sinceramente não deixa de me cheirar a uma versão pobre de "Capitães da Areia" misturada com "Principezinho".

17 May 2007

O mundo fantástico do quotidiano

Julio Cortázar, o conhecido escritor argentino (que, no entanto, nasceu em Bruxelas), mestre em mesclar realidade e fantasia escreveu "Historias de Cronopios y de Famas" onde descreve, através de pequenos contos onde os cronópios e os famas são os protagonistas, como vivem uns e outros... Uma metáfora para os "pobres" e os "ricos"? Merece uma leitura.

11 March 2007

As viagens na velha Ibéria

"(...) Se tal vier a acontecer, a única conclusão lógica a extrair de tudo quanto se viu até agora, é que, afinal, a viagem não valeu a pena. O que, por outro lado, seria, ou será, uma maneira demasiado simplificada de encarar a questão, pois nenhuma viagem é ela só, cada viagem contém uma pluralidade de viagens, e se, aparentemente, uma delas parece apresentar tão pouco sentido que nos sentimos obrigados a sentenciar, Não valeu a pena, mandaria o senso comum, se por preconceito ou por preguiça não o obliterrássemos tantas vezes, que verificássemos se as viagens de que aquela foi conteúdo ou continente não serão valiosas bastante para terem, afinal, valido a pena e as penas."

“O mundo está cheio de coincidências, e se uma certa coisa não coincide com outra que lhe esteja próxima, não neguemos por isso as coincidências, só quer dizer que a coisa coincidente não está à vista. No exacto instante em que os viajantes se debruçavam para o mar a península parou. Ninguém ali deu pelo que sucedera…”.

"O homem põe, o cão dispõe, tanto vale este ditado novíssimo como o antigo, algum nome teremos que dar a quem em instância final decide, nem sempre o dos despachos é Deus, como em geral se acredita."

(José Saramago, A Jangada de Pedra)

Nada mais, tudo isto

“A cabeça dos seres humanos nem sempre está completamente de acordo com o mundo em que vivem, há pessoas que têm dificuldade em ajustar-se à realidade dos factos, no fundo não passam de espíritos débeis e confusos que usam as palavras, às vezes habilmente, para justificar a sua cobardia”

“Um estado organizado não pode perder uma batalha destas [referindo-se a uma percentagem vencedora de votos em branco (83%) nas eleições legislativas no circulo eleitoral da capital], seria o fim do mundo, Ou o começo de outro”

“A declaração do estado de excepção não havia produzido qualquer efeito perceptível no sentido desejado, porquanto, não tendo os cidadão deste país o saudável costume de exigir o regulamentar cumprimento dos direitos que a constituição lhes outorgava, era lógico, era mesmo natural que não tivessem chegado a dar-se conta que lhos haviam suspendido”

(José Saramago, Ensaio sobre a Lucidez)
(Foto: Ramón Ruiz)

9 March 2007

Uma verdade (mesmo muito) inconveniente

Vi o filme-documentário de Al Gore no dia da sua estreia em Portugal, há já uns meses. Voltei a vê-lo esta semana porque o repuseram, suponho que a propósito de ter sido reconhecido com a estatueta dourada de Hollywood. Tenho que dizer desde já que ouvir o Al Gore a falar em castelhano tem sempre o seu lado deprimente (por favor Espanha, deixa de dobrar os filmes!).
A primeira vez que vi o filme apanhei a mensagem global. Desta vez detive-me em alguns detalhes (não é sempre assim?). Continuo a reconhecer o grande valor pedagógico do filme. Isso ninguém pode tirar a Al Gore. O simples facto de através de explicações simples relacionar um conjunto de factores que na prática constituem uma teia de enorme complexidade, é um ponto favorável ao ex-próximo presidente dos estados unidos.
Por coincidência ou não, esta manhã recebo uma mensagem no meu mail que diz que segundo o Tenesee Center for Policy Research a maior mansão de Gore (às quais soma mais duas) localizada em Nashville, consome mais de 20 vezes electricidade que a média nacional americana. Primeira pergunta que me vem à cebeça: será que é uma informação que tem como objectivo único descredibilizar o "pastor do clima"? A seguir vêm as outras perguntas: Será mesmo verdade? E se for?
Não gosto de fazer avaliações precipitadas e acima de tudo injustas e, numa época em que não sabemos se estamos a ser informados ou manipulados, opto por ser extremamente céptica em relação a todas as fontes.
Mas será pior um Al Gore que asume uma posição de "pastor do clima" que também comete pecados mas que ainda acredita na reconversão das massas que um James Lovelock (autor da Teoria de Gaia e do recente livro "The Revenge of Gaia") que já nos faz antever a tostar nas chamas do inferno caso não se invista a sério na energia nuclear?
É verdade que nos detalhes de "Uma Verdade Inconveniente" que guardei na memória destacou-se o facto de que quase todos os "separadores" da conferência que Gore dá no filme, marcados pelas declarações pessoais, se passam em carros ou em aeroportos... Não acho que possa atirar "pedras" a Al Gore, quantos de nós poderão? Mas essas imagens marcam um statement: Al Gore parece acreditar que podemos manter o actual estilo de vida desde que compremos um carro híbrido ou instalemos lâmpadas de baixo consumo em casa. Mas será que o caminho actual para resolver o aquecimento global do planeta passa na realidade pelas lâmpadas que usamos na nossa casa?
É já reconhecido que para que as nossas sociedades se tornem mais eficientes/sustentáveis precisamos de reduzir o nosso consumo de recursos naturais e a produção de poluição em 90% ("factor 10") e isso custará alterações profundas na nossa forma de estar e acima de tudo implicará transformar a economia (ver este livro incontornável sobre o tema!). Ora bem, como eu vejo as coisas, a energia está na base de tudo o que "é" a nossa sociedadeeconomia (a fusão é intencional) actuais. Será que a alteração não tem mesmo de ser mais profunda desde já? Não andaremos a tentar curar uma perna partida com um penso rápido? E claro, neste contexto Al Gore é o vendedor de pensos rápidos.

26 February 2007

Algumas leituras recentes

Voltei à minha fase José Saramago, talvez por ter lido recentemente no El País uma frase que me deixou algo perplexa com a pretensão que encerrava. Dizia, a propósito do lançamento em Espanha da sua pequena biografia da infância e juventude, algo semelhante a isto: “graças ao trabalho de tradução da Pilar o Saramago é o maior escritor espanhol de expressão portuguesa”. Terei feito uma interpretação errada da frase? Que significa isto?
A verdade é que o José Saramago é muito apreciado em Espanha. Juntamente com o António Lobo Antunes. São os dois autores que vejo frequentemente na imprensa e nos escaparates das livrarias. O livro “Pequenas Memórias” está em destaque em todas as livrarias de Logroño.
Talvez graças a este impulso li de seguida o "Ensaio sobre a Lucidez", a "Jangada de Pedra" e as "Pequenas memórias" que comprei em português na minha última e curta incursão ao Porto em Fevereiro.
Todos os livros são igualmente interessantes. O mais mágico? A Jangada de Pedra, sem dúvida. A Península Ibérica, depois de se descolar inexplicavelmente da Europa pelos Pirinéus, está literalmente à deriva no Atlântico, sem rumo certo. Os povos ibéricos saem da sua rotina e acompanham este movimento errante, em busca de algo... Um pequeno grupo de portugueses e espanhóis juntos por partilharem alguns fenómenos insólitos segue estas migrações, cria relações, cresce com o tempo. Cada uma destas pessoas também erra na busca da sua vida… Ao ler o livro não pude deixar de pensar nas bonecas russas, uma dentro da outra, dentro da outra, dentro da outra…
O “Ensaio sobre a Lucidez” deixou-me lucidamente esclarecida sobre até onde poderão ir os políticos que se vejam despeitados pelos cidadãos. É ficção o que se lê naquelas páginas mas podia muito bem ser verdade.
As “Pequenas Memórias” são mesmo isso. Sabem a pouco. O livro ajudou-me a conhecer melhor o Saramago (ou melhor, o Sousa) que escreve livros fantásticos mas falta-lhe algo…

4 January 2007

Passageiros em trânsito

"Passageiros em trânsito - Novos contos para viajar" é uma recente compilação de contos de José Eduardo Agualusa. Fala de viagens: viagens físicas e interiores ou de um misto das duas.
Gostei particularmente de algumas frases.

"O passado é como o mar: nunca sossega. As casas encolhem, como os velhos, ao passo que as árvores crescem sem parar."

"A vida é uma corrida (...). Quem olha para trás enquanto corre arrisca-se a tropeçar. Eu não olho para trás. Avanço por vezes de olhos fehados, e tropeço, como os outros, e eventualmente caio, mas não olho para trás. Nunca fui pessoa de cultivar saudades. Não colecciono albúns de fotografias (...). Sigo sempre em frente. Quando me perguntam para onde vou encolho os ombros. Rio-me: adiante."

"Não há fim. O que há são intervalos."