22 November 2006

Uma portuguesa em Espanha reflecte sobre "As reflexões de um espanhol em Portugal"


Ando a ler um livro chamado "Reflexões de um espanhol em Portugal" (Federico González) que, não sendo de todo um livro que eu possa chamar sequer de "interessante", traz a lume algumas das principais diferenças culturais e mesmo estruturais entre Portugal e Espanha...
Por exemplo, logo nos primeiros capítulos apresenta dados que explicam porque é que Portugal está actualmente atrás da Espanha em termos de desenvolvimento económico.
Segundo o González, e suportado por algumas referências bibliográficas, isso acontece por uma complexa combinação de circunstâncias:

1. O Salazar era muito conservador e o Franco "desenvolvimentista" (veja-se o exemplo de Palma de Maiorca e de Bilbau de hoje, que foram na altura de Franco estrategicamente definidas como áreas de desenvolvimento turístico e industrial, respectivamente). Em particular refere que Salazar não gostava do risco e condicionou a industrialização.

2. Na altura da transição para as democracias os dois países passaram por experiências muito distintas.
A Espanha conseguiu "pela única vez na sua história" consenso entre diferentes partes e a classe média espanhola (30% da população era constituída por pequenos e médios empresários) encarou a transição como uma oportunidade. Também a classe "operária" viu aqui uma possibilidade de ascenção. Foram estas pequenas empresas que protagonizaram grande parte do desenvolvimento económico espanhol.
Segundo o autor e as suas fontes, em Portugal a transição foi mais polarizada, conduzindo à anulação do empresariado e à "sacralização do espírito do funcionário". Tudo o que é público é positivo e a iniciativa privada é encarada como negativa. O autor refere que "foi nesta altura que se gerou uma mentalidade de conformismo nos portugueses, isto é, acontecesse o que acontecesse o estado providenciaria."
De referir que a estrutura de classes no país era também muito polarizada - as "famílias" e elites a concentrar a riqueza e a maioria da população na pobreza, sem grande vislubre de futuro.
Por esta altura Portugal estava também a ser expulso de Angola, Moçambique, Guiné e Cabo Verde e naturalmente sofreu com o corte dos recursos que dai vinham e com os "retornados" que voltavam a casa para começar do zero.
Voltarei a algumas ideias deste livro mais tarde...

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